A Dama do Vinho: Alexandra Marnier Lapostolle

A francesa Alexandra Marnier Lapostolle, herdeira da lendária família que criou o licor Grand Marnier, reescreve a história de seu clã ao criar um vinho considerado o melhor de 2008. Detalhe: ele é chileno.

Alexandra Marnier Lapostolle
A FRANCESA ALEXANDRA MARNIER LAPOSTOLLE SE LEMBRA COMO SE fosse ontem do dia em que caminhou por um vinhedo, no vale do Colchagua, Chile, em 1993. Bisneta de Louis Alexander Marnier, criador do lendário licor Grand Marnier e da vinícola Château de Sancerre, no Vale do Loire, queria fazer história da mesma forma que seus antepassados e buscava o lugar perfeito para que isso se tornasse realidade. E foi ali, no Chile, do outro lado do Atlântico, que Alexandra, formada em economia, sentiu que isso seria possível. "Quando pisei naquele vinhedo percebi que era o lugar ideal, foi uma questão de feeling", conta Alexandra, que havia procurado terras por mais de dois anos. "De qualquer forma, chamei Michel Rolland para confirmar o que eu pressentia", explica. Rolland, um dos maiores e mais polêmicos enólogos do mundo, consultor de vinícolas espalhadas pela França, Itália, Estados Unidos e Argentina, acompanhou Alexandra na viagem. Ele caminhou pelos vinhedos, passou a mão no solo, checou as videiras com atenção e analisou a incidência do sol. No final, olhou para Alexandra e decretou: "Você tinha razão, esse lugar é perfeito." Era a senha que ela precisava para levar seu projeto adiante. Em 1994, depois de receber o aval da família, Alexandra criou a Casa Lapostolle, a primeira aposta da empresa fora da França. Mas somente no início de novembro, depois de US$ 20 milhões investidos e de uma década de safras, ela pôde sentir que, de fato, fez história. O Clos Apalta 2005, uma das estrelas da Lapostolle, foi o primeiro sul-americano eleito o vinho do ano pela revista americana Wine Spectator. "Ainda temos muito a fazer, muito a melhorar", disse Alexandra à DINHEIRO em sua recente visita ao Brasil.
Apesar de sua modéstia, encabeçar a lista da Wine Spectator é um feito e tanto. Para chegar nesse resultado, que leva em consideração as características da bebida, o preço e a disponibilidade da garrafa, os avaliadores da revista americana degustaram 19,5 mil vinhos. O Clos Apalta venceu os grandes ícones de Bordeaux e da Borgonha, derrubou os tintos italianos e passou a enxergar os americanos pelo retrovisor. "Mais do que elevar o nome da Casa Lapostolle, esse prêmio põe o Chile no mapa mundial do vinho", diz Ciro Lilla, dono da importadora Mistral, que traz os rótulos da vinícola ao Brasil. Pode parecer bobagem, há quem diga que é apenas mais um prêmio, mas ele influencia diretamente nas vendas da indústria. Na década de 90, por exemplo, um vinho australiano venceu pela primeira vez a lista da Wine Spectator. "Aquilo lançou a Austrália como grande país produtor e teve efeito brutal nas vendas", explica Lilla. Por aqui, o Clos Apalta 2005 custa US$ 179 a garrafa e, mesmo se alguém quiser comprar uma caixa, não poderá. Diante da procura e da quantidade reduzida que veio para o Brasil - somente 1.800 garrafas -, a importadora está limitando a compra em três unidades por pessoa.
Mas, afinal, o que torna o Clos Apalta 2005 tão especial? O primeiro fator é o solo onde são cultivadas as uvas e a idade das videiras. "Elas foram plantadas em 1920, há mais de 80 anos", diz Alexandra. "Isso faz com que haja menos uvas, porém são mais concentradas", explica José Luiz Borges, vice-presidente da Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo. Mais: fazem parte de mudas francesas de Bordeaux, levadas ao Chile antes da filoxera, praga que dizimou os vinhedos franceses no fim do século 19. Além disso, o vinho é supervisionado por Michel Rolland, que assinou um contrato de exclusividade com a Lapostolle no Chile, e é produzido por uma família francesa com mais de um século de tradição no mundo do vinho. "Tenho ótimos profissionais e vou ao Chile cinco vezes ao ano", diz ela, que vive na Suíça. A respeito do trabalho de Rolland, criticado por "pasteurizar" os vinhos que produz, Alexandra é enfática. "Os vinhos são diferentes. Não é porque uma pessoa é loira que ela é igual", compara. O Clos Apalta 2005 é um corte das uvas Carmenere (42%), Cabernet Sauvignon (28%), Merlot (26%) e Petit Verdot (4%). Alguns especialistas dizem que o vinho é o mais francês do Chile. "Não é francês e não é chileno, ele é único e representa Apalta", define Alexandra.


Nº EDIÇÃO: 583 | 03.DEZ - 10:00 | Atualizado em 09.02 - 22:58
Extraído de IstoÉdinheiro >>
Para acessar outra entrevista dela, em inglês, visite o Decanter.com >>
.