Filipa Pato, a defensora dos vinhos sem maquiagem


Filha do renomado enólogo português Luís Pato, a herdeira que visitou a região sul neste ano defende que o vinho deve ser um produto natural e revela ao Cepas & Cifras que não se arriscaria a produzir no Brasil


filipa-pato-350Formada em Química, a jovem enóloga portuguesa Filipa Pato usa seus conhecimentos na área para evitar o uso de químicos em seus produtos. “Para mim um vinho deve ser um produto natural. E para ter efeitos benéficos na saúde deve ser elaborado com essa filosofia na vinha e na adega”, defende. Na vinícola, Filipa prefere utilizar modos de cultivo antigos inspirados no tempo dos avós. Ainda que esse tipo de cultura seja mais dispendioso, Filipa não abre mão que seja feito assim. “A pureza da fruta e dos taninos que se sente nos nossos vinhos reflete exatamente esta forma de trabalho”, diz orgulhosamente. O modo de trabalho de Filipa também a impede de ter grandes áreas de vinho. Tanto é assim que, por ano, ela tem produzido cerca de 90 mil garrafas – 80% do total destinado ao mercado internacional.

Mesmo com poucos hectares destinados ao cultivo da uva, Filipa consegue colocar em prática o espírito experimentalista da família Pato. “Estamos fazendo vinhos fortificados de baga e os resultados são tão animadores que a região da Bairrada abriu os seus estatutos este ano a certificar este tipo de vinho. No primeiro ano que fizemos, o Espirito de Baga alcançou 90 pontos no Parker e foi considerado uma grande revelação pela crítica inglesa”, conta. 

Com o feito, Filipa conseguiu ressuscitar uma tradição. É que o Marquês de Pombal, quando denominou a região do Douro em 1756, proibiu todas as localidades ao redor de produzirem vinhos fortificados. Filipa afirma ter uma química especial com a baga que se tornou uma paixão da família que tem atravessado gerações. “Nossa persistência fez com que tenhamos hoje vinhas velhas de baga que é uma casta muito exigente, seja na viticultura, seja na vinificação. O saber empírico de geração em geração é fundamental para a evolução que temos tido. É a casta que melhor transmite os terroirs da região da Bairrada. E também a uva que dá longevidade aos tintos da Bairrada”, entusiasma-se apontando que, além da Baga, as variedades Pinot Noir e Nebiolo são referências para ela.

No campo das experiências, Filipa adiantou ao Cepas & Cifras que o melhor vinho feito por ela está por chegar ao mercado no próximo ano. “Nosso tinto 2013 foi o melhor produto já feito por nós. Foi uma colheita desafiadora, com maturação muito tardia. Passei um verão sem ir à praia para conseguir segurar a colheita. Estou muito feliz com o resultado, pois teremos ainda menos quantidade (de garrafas), mas a qualidade é a melhor que fizemos até hoje”, revela. O ano de 2014 também guardou para Filipa seu maior fracasso. “Produzimos um vinho branco fermentado em ânfora que era tão pouco [100 litros apenas] que depois acabou oxidando numa cuba de maior capacidade. Mas garanto que dentro de dez anos será um ótimo vinagre… Acredito que um bom vinagre deve ser feito de um bom vinho também”, argumenta.

Filipa, que já experimentou um vinho produzido na campanha gaúcha feita com castas portuguesas, revelou ao Cepas & Cifras, no entanto, que não se arriscaria a fabricar a bebida no Brasil. “Não tendo possibilidade de acompanhar o vinhedo durante todo o ano, não me aventuro a fazer um vinho no Brasil. Fazer vinho para mim não é só colher as uvas e seguir a vinificação, pois um grande vinho é feito na vinha”, diz Filipa que visitou Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre em fevereiro deste ano em uma promoção das importadoras Porto a Porto e Casa Flora. “Acho que o Brasil tem condições fantásticas para fazer outro tipo de bebidas. Adoro, por exemplo, a cachaça com palmito”, opina Filipa.

Fonte: Amanhã
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