Produção e interesse por cerveja artesanal ganha adeptos em Brasília

Bebida pode ser produzida em casa e o investimento inicial começa a partir de R$ 1,5 mil. A UnB é a única universidade do país a oferecer uma disciplina específica sobre o assunto.

Com o mercado em crescimento, uma garrafa da bebida pode custar até R$ 180

A produção de cervejaria artesanal não é uma atividade exatamente nova, mas, nos últimos anos, o interesse pela prática - e, principalmente, a degustação da bebida - cresceu consideravelmente no Distrito Federal. Segundo os donos de bares e de lojas especializadas, o aumento na procura se dá principalmente pela curiosidade dos consumidores em sair do convencional e provar algo novo. Para se ter uma ideia, somente no último Dia dos pais as vendas cresceram 40% em um quiosque especializado que comercializa a bebida na cidade.

O preço não é dos mais baratos. Uma garrafa com 350 ml pode custar entre R$ 10 a R$ 180, dependendo de onde a bebida é fabricada. Por isso, em Brasília, o público que procura pelo produto é considerado de média e alta renda, formado principalmente por homens na faixa de 30, servidores públicos e de pessoas que já provaram esse tipo de cerveja em outros países. No entanto, com a procura crescente em Brasília, aos poucos esse perfil vem mudando e hoje já é possível encontrar jovens e mulheres que se interessam pelos novos sabores.

Anderson conta que é importante degustar para aperfeiçoar o paladar: "Aprendi tudo de maneira autodidata, lendo e provando"

O malte usado e a quantidade de lúpulo são usados para definir o sabor final da cerveja, por isso, o vendedor de uma tradicional cervejaria artesanal do Plano Piloto, Anderson Saraiva Pinto, 37 anos, diz que faz uma triagem com cada cliente antes de indicar uma cerveja. “Eu pergunto se ele gosta das mais amargas ou adocicadas. Também ajuda saber que cerveja (vendida em mercados) ele costuma beber”. Entre as várias opções disponíveis, Anderson recomenda as bebidas de origem alemã e belga para quem vai experimentar o produto pela primeira vez. “Elas são as mais fáceis de beber porque não amargam tanto”, explica.

O biólogo Matheus Andreozzi, 34 anos, admite que nunca foi um fã das cervejas tradicionais, vendidas em mercado, mas há tempo experimenta as novas marcas artesanais. "Sempre dei preferência aos destilados e só bebia cerveja com os amigos, agora tenho melhorado meu paladar para as artesanais”. Já o músico Silvan Carlos Nunes, 25 anos, descobriu na cerveja um novo jeito de beber. “Não é uma bebida para excessos, a cerveja artesanal é boa para degustar, até porque o preço e o teor alcoólico são maiores”.

Produção própria
A vontade de beber e a curiosidade fez crescer também o número de cervejeiros artesanais no DF. A Associação Cerva Candanga, que é um grupo de pessoas que produzem em casa a própria cerveja e que se reúnem regularmente para trocar experiências, conta atualmente com 24 membro. O médico veterinário Heitor Teixeira, 29 anos, e o publicitário Vicente de Paula, 31 anos, são dois deles e contam que conheceram a técnica por meio de um amigo e acabaram se arriscando nos maltes e nos tonéis.

Todo o processo de produção e engarrafamento é feito na própria casa de Heitor (e), que conta com a ajuda de Vicente

Depois de realizar muita leitura especializada, eles começaram a própria produção, com investimento inicial de R$ 500. “A gente já conhecia o processo, mas não sabia ao certo o que fazer. Começamos a pesquisar em alguns sites, em alguns programas de computador e aplicativos”, conta Vicente. O Beer Smith, um app de celular que auxilia desde as medidas dos ingrediente até a tonalidade da cerveja, foi um dos programas utilizados pela dupla durante o período de aprendizagem.

Eles contam que no início a produção era feita em garrafões de 20 litros de água. No entanto, com o aumento do interesse dos amigos, o armazenamento passou a ser feito em galões de 60 litros, o que garante, aproximadamente, 90 garrafas. O sucesso foi tanto que Heitor e Vicente criaram, inclusive, a própria marca, a Cruzburbier. A ideia agora é ampliar a produção com novos sabores. “O lance é a experimentação. Claro que cada pessoa tem seu segredo, mas como é manual, não tem como sair sempre igual”, diz Vicente.

Em média, para cada 20 litros de cerveja é necessário 6 kg de malte, 20 litros de água, 25g de lúpulo, responsável pelo amargor da bebida, e fermento. Para a produção, Heitor e Vicente contam que compraram alguns equipamentos usados, mas acabaram produzindo alguns outros. O investimento inicial, que contempla a aquisição de panelas, resfriador, mangueiras, garrafas, densímetros, entre outros aparelhos, custa em torno de R$ 1,6 mil.

O malte, lúpulo e fermento são a base para a fabricação da cerveja

Especialização
A Universidade de Brasília (UnB) é a única no país a oferecer a disciplina de Fundamentos da Produção da Cerveja junto à graduação do curso de química. Assim que foi oferecida na UnB, no primeiro semestre de 2013, a disciplina teve a procura de 212 alunos de várias graduações, incluindo história, filosofia e direito. No entanto, deviado a alta demanda, apenas 26 puderam cursar. Por isso que, atualmente, a disciplina é oferecida apenas aos alunos de química.

A cervejaria artesanal, porém, ainda não é regulamentada pelo Ministério de Agricultura e Meio Ambiente (MAPA). Um dos principais fatores é a grande carga de resíduos produzidos no processo. Para cada cinco quilos de malte são gerados cerca de nove quilos de compostos.

* Matéria Extraída do Correio Braziliense
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