Quando o assunto é cerveja, as discussões são das mais acaloradas. Todo apreciador tem sua marca favorita e a defende com quase o mesmo fervor e entusiasmo de um torcedor de futebol. Cerveja no Brasil é coisa séria. Foi pensando nisso que, pela primeira vez na revista, tivemos a ousadia de promover uma grande degustação do tipo mais popular consumido no país, as Pilsen, e eleger as melhores em qualidade.

Para que tudo ocorresse da melhor maneira possível, adotamos alguns critérios. Primeiro, pesquisamos quais eram as marcas mais facilmente encontradas nos supermercados. Feita a seleção, fomos às compras. Respeitando os prazos de validade de cada marca, adquirimos todas as amostras a ser degustadas e, por meio de sorteio definimos a ordem em que seriam apresentadas aos jurados. Apenas duas pessoas de nossa equipe, que, claro, não participaram da prova, sabiam a ordem das garrafas. Foram 21 marcas, que demandaram cerca de 2 horas de degustação.

A grande campeã para nosso júri foi a Heineken, que recebeu as notas mais altas. Vale lembrar que, antes de ser feita a média das avaliações dos jurados, eliminamos o maior e o menor valor aferido a cada marca. Na sequência, até o sexto lugar, temos cervejas que se destacaram e que formam um grupo separado das demais amostras degustadas. Pela ordem, são elas: Eisenbahn Pilsen, Kirin Ichiban, Therezópolis Gold, Saint Bier e Way. Todas apresentaram, além de notas altas, comentários positivos dos degustadores. As demais amostras, como tiveram notas praticamente iguais, com diferenças de décimos, formaram grupos (leia o quadro).

O estilo pilsen
As cervejas do tipo Pilsen são as mais consumidas em todo o mundo. Relativamente jovens na história da cerveja no mundo – que conta com relatos de sua existência desde aproximadamente 6000 a.C. –, o estilo surgiu em 1842 na cidade de Pilsen, na República Checa, e rapidamente caiu no gosto do consumidor. Alguns fatores justificam esse sucesso. Até então as cervejas eram mais escuras, turvas e mais complexas. As Pilsen surgem como uma opção mais leve, fácil de beber e com uma bela cor dourada e brilhante.

O Brasil segue a tendência mundial de mercado, tendo-a como a cerveja mais consumida. Porém, especialistas alertam que o que o consumidor bebe como Pilsen no país, na verdade, é uma variação do estilo, diferente do que os guias técnicos mostram e de como a cerveja é oferecida em países tradicionais. As principais diferenças estão no amargor, bem mais baixo nas versões nacionais, e no uso de cereais não maltados, como milho e arroz, em sua fórmula, ao contrário das tradicionais, que usam apenas malte de cevada. Conservantes e estabilizantes também aparecem em algumas versões, o que não acontece nas que seguem a receita original.

O ponto mais polêmico é a temperatura de serviço. No Brasil, a regra do “estupidamente gelada” é levada à risca. Sabe-se que, apesar do clima tropical, essa é uma estratégia apresentada pela indústria para mascarar eventuais defeitos ou até mesmo atributos negativos no sabor, já que o frio inibe a ação de nossas papilas gustativas. Além disso, a maioria das marcas nacionais, como mostrou nossa degustação, são bastante similares entre si.

Umas das questões que mais influenciam na qualidade da cerveja Pilsen servida no copo é seu frescor. Quanto mais perto da data de fabricação, melhor tende a ser a cerveja. Isso porque o estilo é bastante frágil a variações de temperatura, trepidações, luz, entre outros fatores. Portanto, em geral, quanto mais jovens, melhor.
Para nosso tira-teima, as cervejas foram adquiridas na forma que estão disponíveis para o consumidor comum, direto das gôndolas. Todas as amostras compradas estavam dentro da data de validade apontada pelo fabricante, e nenhuma delas com menos de um mês da data final. No evento Ao Vivo, convidamos consumidores presentes, e alguns especialistas, a degustar as cervejas às cegas, em ordem aleatória sorteada pela revista.

A ideia de misturar consumidores e especialistas tinha como objetivo entender a percepção de duas frentes distintas. A primeira surpresa na tabulação das notas foi que ambos seguiram a mesma linha, com pequenas variações entre as preferências.

O júri de especialistas foi formado por: Estácio Rodrigues, Instituto da Cerveja; Raphael Rodrigues, site allbeers.com.br; Luis Celso Jr., blog bardocelso.com; Marcos Nogueira, blog bardonogueira.com; Miguel Icassatti, de Men’s Health; Paulo Almeida, do Empório Alto dos Pinheiros e Larissa Januário, do blog semmedida.com.





Foto: Jean Pierre Muller/AFP

Hotel de luxo fica ao lado de vinícola premiada no sul do país.
Massagens e terapias são à base de uva e vinho.

Foto: Jean Pierre Muller/AFP

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Hóspedes de um hotel de luxo próximo a uma vinícola no sul da França podem provar as uvas plantadas na região não só tomando vinho, mas sentindo-as na própria pele.

O "Les sources de Caudalie", na cidade de Martillac, tem um spa temático em que todos os produtos são à base da fruta. Eles são desenvolvidos pelo laboratório Caudalie, que afirma utilizar pesquisas da Universidade de Bordeaux para criar os cosméticos.

Entre as opções, há massagens os cremes feitos com vinho e um tratamento para a pele com sementes de uva.

O cliente também pode beber vinho enquanto relaxa em um dos banhos de ofurô.


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O hotel oferece ainda degustações e passeios à vinícola Chatêau de Smith Haut Laffite, de onde vem a bebida servida lá.

No Brasil, a marca tem um franqueado, o Spa do Vinho Caudalie. Localizado em Bento Gonçalves, no Vale dos Vinhedos do Rio Grande do Sul, o local também oferece tratamentos nessa linha de "vinoterapia".

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 Em uma cidade fria como Curitiba, trocar a tradicional cerveja pelo vinho não é uma opção que parece de todo inusitada. Foi desta forma que pensou Junior Durski em 2006, quando, motivado por uma “fatalidade”, resolveu criar a sua própria adega e fazer dela referência nacional no segmento.

Durski confessa que até pouco antes da abertura do negócio era fã apenas de cerveja e vodka. “Até que um dia acabei indo a uma adega e comprei vinhos, mas comprei todos errados”, relembra Júnior, que é chef de cozinha dos restaurantes Durski e Madero. Os R$ 20 mil investidos de forma equivocada foram o combustível para que Durski começasse a estudar sobre o assunto. “Pensei ‘agora então vou ter que acertar a minha compra’, quando eu resolvi fazer uma carta de vinhos sem entender fiz uma bobagem”.

O que começou como estudo, logo passou a ser paixão. “Muito rapidamente eu vi que vinho é muito melhor do que cerveja e vodka, que eu nunca mais tomei. Fui me apaixonando cada vez mais pelo negócio”. E como todo apaixonado, o chefe não mediu esforços para montar sua adega. São cerca de 2.400 rótulos de países de todas as partes do mundo, e uma estrutura de três andares, blindada, que armazena as bebidas de acordo como convém a cada uma. “Eu tenho isso em mim, de fazer bem feito e fazer grande”, avalia.

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Alguns rótulos se destacam entre toda essa variedade, seja pela safra, preço, qualidade, ou história. O vinho mais longevo da adega Durski é um Taylor’s Scion, um Vinho do Porto que data de 1850, e custa R$ 26 mil. “Apesar de ser de 1850, ele foi engarrafado no ano passado. Essa vinícola comprou uma outra, em Portugal, e quando eles foram reformar viram no fundo de uma parede falsa dois barris de vinho. Experimentaram e o vinho estava maravilhoso, porque estava dentro daquele ambiente, decerto por conta das guerras”, contou Júnior.

Apesar de este exemplar estar em boa forma, Durski alerta que a máxima “quanto mais velho o vinho, melhor” é apenas mito. A qualidade da bebida depende de uma série de variáveis, como a safra, se ele está pronto para o consumo, se ele vai evoluir mais. Ele lembra de uma situação em que um produtor francês lançou um desafio a Durski e outros 15 especialistas – diferenciar, na taça, qual vinho era vendido por € 6, e qual era vendido por € 600. O mais barato foi escolhido pela grande maioria. “Ele estava em um momento melhor, estava no auge. O outro ia precisar de mais 10 anos para chegar lá. Ele vai evoluir e vai se tornar um vinho fantástico em 2020”, assegurou. Esse auge, segundo Durski, dura entre dois e três anos.

A adega comporta alguns vinhos de valor bastante elevado. Para sair do estabelecimento levando um Château D’Yquem produzido em 1904, o mais caro do local, o cliente terá de desembolsar a quantia de R$ 36 mil. De acordo como chefe, esse é um valor praticamente hipotético, já que ele nunca vendeu um vinho nessa faixa de preço. “Não é nem 0,1% (do total de venda), é 0% mesmo)”. Durski explica que mantém esses vinhos por ser um colecionador, para ter uma carta de vinhos de qualidade, e também por considerar como um investimento.

“Vinhos desse tipo têm valorização comparável à da Bolsa de Valores, ouro, e coisas do tipo. Esse Château D’Yquem, por exemplo, tem poucas garrafas no mundo, e todo ano alguém se emociona e acaba tomando uma, isso valoriza”, conta Durski, sustentando que também há o contra-peso da falta de liquidez. “Se eu resolver vender hoje não vende, é igual obra de arte”, afirmou. Ele também acredita que se a carta de vinhos possui essas opções, instiga automaticamente as pessoas a consumirem uma bebida um pouco mais cara.

Para quem prefere não gastar tanto em um vinho, a adega também oferece garrafas a preços mais acessíveis, como o argentino Alamos Malbec, safra 2009, que é vendido por R$ 45. Também são opções as meia-garrafas, e 1/4 de garrafa. A carta completa pode ser acessada no site do Durski.

Turismo
Com tantas opções, a adega Durski virou um centro de referência sobre o assunto em Curitiba, e também no Brasil. Com prêmios nacionais no currículo, o estabelecimento recebe constantemente visita de especialistas, colecionadores e interessados. Durski conta que médicos de todo o mundo vão conhecer o local.

Dentre as visitas ilustres, Durski se lembra de uma passagem do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, já depois de ter deixado o cargo. “Um dia estávamos eu e ele na adega conversando sobre vinhos, aí ele pegou um Romanée-Conti de 1978 e falou: ‘Júnior, esse vinho aqui é fantástico’. Eu respondi: ‘Diga que vai ser candidato a presidente de novo que eu abro a garrafa’.”

Futuro
Durski não planeja uma expansão da adega, mesmo porque não existe nenhuma premiação para a maior variedade de rótulos, o que o motivaria. O objetivo agora é mantê-la atualizada com as novas safras que entram no mercado. “Eu não sossego, se eu posso fazer melhor, eu vou fazer melhor”, finalizou.

Serviço
A adega Durski fica na Avenida Jaime Reis, 254, centro de Curitiba
(41) 3225-7893

O Restaurante Durski abre de terça a quinta-feira, das 19h45 às 23h. Sextas e sábado das 18h45 às 23h30.
(41) 3225-7893

O Restaurante Madero Prime abre de segunda a quinta-feira, das 12h às 14h30 e das 19h45 às 23h. Nas sextas das 12h às 14h30 e de 19h45 à meia-noite. Aos sábados das 12h às 15h30 e das 19h45 à meia-noite. Domingos das 12h às 22h.
(41) 3013-2300
Foto: Divulgação/Sklárna

Segundo o estabelecimento, bebida amacia e regenera a pele.
Banheira com água quente recebe 5 litros da bebida.
Turistas que quiserem mergulhar (literalmente) na cultura cervejeira da República Tcheca podem não só experimentar as muitas variedades da bebida no país, mas procurar um dos “beer spas” (spa de cerveja) que atraem muitos estrangeiros.

Um deles fica no Sklárna, um complexo na cidade de Harrachov que reúne fábrica de cristal, cervejaria, museu e um balneário dedicado à bebida.

Foto: Divulgação/Sklárna
O banho é preparado com "água da montanha" aquecida a 36°C, à qual são adicionados 5 litros de cerveja, tanto clara quanto escura, não filtrada e não pasteurizada. A água também recebe lúpulo, que, segundo o site, atua como um antibiótico natural.

De acordo com o spa, a cerveja tem “efeito rejuvenescedor” para a pele, pois possui vitaminas do complexo B, proteínas e sais minerais que a deixam macia e regenerada.

O banho de 30 minutos, seguido por mais 30 de relaxamento e com direito a duas cervejas (essas para beber) custa R$ 80 para uma pessoa e R$ 150 para o casal, em banheira dupla.


Teor alcoólico de um vinho artesanal varia de 10% a 12%.
Unidade fica na Serra Gaúcha, principal produtora da bebida do Brasil.

As duas parreiras de Haroldo da Silva, de Botelhos, em Minas Gerais, dão muita uva. Para aproveitar a produção, ele está com a ideia de fazer vinho artesanal. A Embrapa Uva e Vinho, principal centro de pesquisas do país voltado para essas atividades, tem uma receita simples para preparar a bebida.

A história da Serra Gaúcha, principal produtora do Brasil, sempre foi ligada a história da bebida no país. A região, muito marcada pela imigração italiana a partir do final século 19, abriga centenas de fabricantes, de famílias que produzem vinho caseiro, com receitas antigas, ou empresas modernas que elaboram vinhos famosos em escala comercial.

A maior parte das vinícolas da serra se concentra no Vale dos Vinhedos, na região de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul. Com colinas suaves, fazendas bonitas, hotéis e pousadas, o lugar atrai turistas o ano todo. Não por acaso fica na Serra Gaúcha a Embrapa Uva e Vinho, principal centro de pesquisas do país voltado para essas atividades.

“É possível fazer vinho em casa. A uva tem que ser sadia, madura e sã. Uva niágara é uma uva de mesa muito utilizada no Brasil e também pode ser usada pra elaboração de vinho. A uva niágara rende em torno de 70% a 75% de vinho. Então, teoricamente 15 quilos de uva para obter dez litros de vinho”, explica Irineo Dall’Agnol, produtor de vinho, enólogo e responsável técnico do laboratório da Embrapa.

A uva usada na Embrapa é a isabel, mas as etapas da receita são as mesmas para qualquer variedade. Primeiro, as bagas devem ser colocadas em um tacho ou panela. Depois, tudo deve ser espremido. A higiene é fundamental durante toda a receita. Panelas, tachos e mãos precisam estar lavados e limpos.

O suco de uva que vai surgindo é o que os técnicos chamam de mosto. O líquido doce e melado vai entrar em processo de fermentação. Isso ocorre graças ao contato do açúcar das uvas com alguns tipos de fungos que se desenvolvem naturalmente nos vinhedos. Os fungos invisíveis a olho nu também são conhecidos como leveduras.

Alguns dos fungos que vivem na natureza não são bons para o sabor do vinho. Por isso, o enólogo da Embrapa recomenda a utilização de um tipo de sal para fazer uma seleção. O metabisulfito de potássio pode ser comprado em farmácias de manipulação. Ele elimina os fungos indesejáveis e mantém vivos no mosto apenas as melhores leveduras para a fermentação do vinho. A dosagem recomendada é de um grama do produto para dez quilos de uva. “Dissolve no próprio mosto e logo a seguir adiciona à massa de uva”, explica o enólogo.

O material deve ser bem mexido. Em seguida, o líquido e a casca são transferidos para um garrafão de vidro. Nessa etapa, o enólogo aproveita para dar outra dica importante: não é em qualquer panela ou tacho que se presta pra fazer vinho. “Áço inoxidável é o indicado. Vidro também é muito bom. Não é aconselhável usar madeira”, diz.

Para que a fermentação ocorra de maneira equilibrada, o pessoal da Embrapa tampa o garrafão com uma rolha de silicone que contém uma mangueira que fica mergulhada numa garrafinha de água para permitir a saída do gás carbônico que se forma com a fermentação e, ao mesmo tempo, impedir a entrada de oxigênio.

Quem for fazer o vinho em casa pode usar uma rolha comum. O fundamental é fazer um furo e colocar uma mangueira, seguindo esse mesmo modelo. Durante os primeiros cinco dias da fermentação é importante revirar o material duas vezes por dia para misturar a casca e líquido.

No quinto dia é hora de descartar o material sólido que fica boiando e transferir apenas a parte líquida para outro recipiente. Com o líquido já separado, dois cuidados são fundamentais: manter o garrafão sempre bem cheio e a cada dez dias transferir o líquido para um novo recipiente. A medida tem o objetivo eliminar a borra, que é a pasta que se forma fundo do vidro.

O pessoal da Embrapa recomenda que a mangueira para a saída de gás carbônico seja mantida durante pelo menos 40 dias. Quando a água da garrafinha parar de borbulhar o garrafão já pode ser vedado com uma rolha comum, sem furo.

Nesse momento, aos 40 dias, outra medida importante é adicionar a segunda dose de metabisulfito de potássio. Dessa vez, a quantidade usada deve ser de um grama do produto para cada dez litros de vinho.

A partir daí começa a etapa de envelhecimento, que pode durar de seis meses a um ano. Nesse período, o vinho deve ficar fechado em um garrafão ou garrafa comum e mantido em ambiente fresco para desenvolver aromas e apurar o sabor. Passada essa fase, é só servir.

O teor alcoólico de um vinho artesanal varia de 10% a 12%. A Embrapa preparou duas publicações com mais informações sobre o assunto: uma sobre vinho tinto e a outra sobre vinho branco. Cada livreto custa R$ 10 já com as despesas de Correio. Os interessados devem escrever para:

Embrapa
Caixa Postal 130
Bento Gonçalves – RS
CEP.: 95.700-000

Fonte: G1 & Globo Rural

Cervas do tipo Stout, o cara tem que curtir. Não é muito minha praia (ainda), mas esta nacional foi bem interessante. 

A Tupiniquim Chocolate abriu bem o final de semana. O toque de cacau é bacana. Com espuma densa e adociada, de persistência média, o toque brasileiro foi uma boa combinação. 

Na boca é cremosa e o amargor é bem controlado, com leve toque de tabaco, mas duçor, caramelo está ao fundo. O lúpulo pouco aparece, deixando ela bem redonda.

Esta Ale é bem elaborada e consistente. Tenho que explorar mais este universo das escuras. 

Para comprar, acesse Beer King.

Bons goles.








Cerca de 100 pequenas vinícolas da serra do Rio Grande do Sul estão fechando. Os agricultores têm desistido de processar a uva por causa dos prejuízos. A situação preocupa o setor vitivinícola.
Situação de produtores preocupa o setor vitivinícola da região.
Entidades buscam alternativas para evitar que situação se agrave.

Sindicatos e entidades representativas buscam alternativas para evitar que a situação se agrave. Uma das ideias é criar uma cooperativa entre os pequenos agricultores.

Só em Flores da Cunha, cidade com maior número de vinícolas do estado, 50 dos 180 produtores já desistiram de produzir vinho. A cantina da família Andreazza, por exemplo, virou um depósito. As pipas de inox, adquiridas para melhorar a produção, estão paradas. O agricultor Santo Andreazza, que já produziu 140 mil litros de vinho por ano, resolveu abandonar a produção. "Dá mais lucro vender a uva do que fazer vinho", lamenta.

Os vinhos importados, que competem em preço com os nacionais, a venda desenfreada dos chamados coquetéis, que imitam os vinhos, e a falta de incentivo para os pequenos produtores são apontados como os principais fatores para este cenário. "A questão tributária é um grande problema. As pequenas empresas têm que cumprir todas as exigências legais de uma grande empresa. O custo desta empresa por litro de vinho é bem maior do que uma empresa de grande porte", diz Olir Schiavenin, presidente da Comissão Interestadual da Uva.



Vinhedo em Cocalzinho produz quatro mil garrafas vendidas por até R$ 70.
Revista de gastronomia apontou tinto como um dos cem melhores de 2012.

Um médico do Distrito Federal com uma paixão de longa data por vinhos e sem nenhuma experiência na área decidiu, em 2004, implantar um vinhedo e produzir os primeiros vinhos tintos finos do cerrado. A experiência foi tão bem-sucedida que, logo na primeira colheita comercial da safra, em 2010, o Banderas, um dos rótulos produzidos, foi apontado como um dos cem melhores vinhos tintos do mundo em 2012 por uma publicação especializada em gastronomia.

O sucesso comercial se traduz em números. As quatro mil garrafas da safra de 2010 das marcas Banderas e Intrépido, comercializadas a R$ 65 e R$ 70, respectivamente, foram todas vendidas.

Natural de Piracanjuba, em Goiás, o otorrinolaringologista Marcelo de Souza diz que não cresceu próximo a fazendas e nunca teve experiência com plantações. Segundo ele, a paixão por vinhos surgiu quando se mudou para São Paulo para fazer uma especialização. Ele conta que era vizinho de uma importadora da bebida e que adquiriu como hábito passar pela loja para experimentar vinhos de diferentes partes do mundo.

Ao voltar para Goiás, Souza continuou a estudar a bebida e passou a frequentar grupos de degustação como hobby. A ideia de implantar um vinhedo surgiu, segundo ele, “a partir de uma analogia”.

"Foi uma analogia das necessidades que a videira tem para amadurecer a uva. Temos as mesmas condições climáticas de regiões produtoras, com temperaturas semelhantes às do verão mediterrâneo", disse. "O cerrado de altitude tem dias secos e quentes e noites frias, como nos países produtores de vinho. Temos o potencial climático para termos uma grande uva e, logo, um grande vinho."

Souza explicou que as noites frias favorecem o amadurecimento equilibrado de todos os componentes da uva, como a casca, a semente e a polpa. “Uva para chupar é um tipo de uva, e clima bom para amadurecer esse tipo de uva não é o mesmo perfil climático de uma outra região boa para amadurecer uva para vinho”, afirma. "Se tudo é perfeito, você colhe uma grande uva. O clima dá a parte final para fazer um vinho de qualidade", disse.
Cocalzinho de Goiás
Em 2004, o médico saiu com a família em busca de um solo adequado para plantar o vinhedo e escolheu um terreno em Cocalzinho de Goiás, município goiano na Serra dos Pireneus. Souza fixou residência em Pirenópolis com a família, para poder conciliar os cuidados com o vinhedo e o trabalho de médico em Brazlândia, no DF.

O passo seguinte foi iniciar o plantio de 78 fileiras de 200 metros de mil mudas de quatro variedades importadas da Itália: tempranillo, syrah, barbera e sangiovese.

Depois de colher as quatro toneladas da uva, a fruta é levada para a cidade, onde é processada em um galpão de produção e passa pelo processo de fermentação e maturação em tanques de inox.

O processo seguinte é colocar o líquido em barricas de carvalho americanas e francesas, onde podem passar até seis meses antes de serem engarrafadas. Souza explica que a finalidade delas é deixar o vinho mais encorpado e macio. “Passar o vinho pela barrica faz com que a cor fique mais firme e mais escura. Os aromas da barrica acrescentam-se aos aromas do vinho e fazem com que ele fique mais rico e mais interessante”, explica.

O período para atingir um vinho de qualidade é longo. Da colheita até o engarrafamento da bebida, o processo leva até dois anos.

Rótulos
O vinho Banderas, o mais famoso produzido pelo médico, tem predominância da uva barbera (85%) com 10% de tempranillo e 5% de sangiovese.

Em 2012, o Banderas foi considerado um dos cem melhores vinhos do mundo pela revista "Prazeres da Mesa" – lista na qual apenas sete marcas eram brasileiras. O rótulo também foi considerado pela revista "Baco" como um dos três melhores vinhos brasileiros acima de R$ 60 e o "Anuário do Vinho Brasileiro 2013" listou o Banderas como o melhor da categoria “outras castas tintas”.

Segundo Souza, o rótulo tem aromas bastante frutados e sabores intensos com notas de chocolate e de café. "É um vinho macio e pronto para tomar, não precisa guardar para melhorar."

Já o Intrépido tem predominância de syrah (87%) com 13% de tempranillo e é comercializado a R$ 65. "Ele é duro e tânico, o tipo de vinho que evolui na garrafa", diz Souza. "O perfil do vinho é de frutas vermelhas e escuras, além de especiarias, como cravo e pimenta."

Sobre o preço relativamente elevado dos produtos, Souza afirma que além da qualidade atestada por premiações, a demanda pelo vinho é maior do que a oferta. “O preço do vinho tem vários reflexos. Um é a qualidade. Ele compete com produtos do mesmo preço e mais caros. É um vinho raro, mal sai do estado de Goiás.”



Futuro
Souza afirma que ainda não tem a intenção de exportar os vinhos, mas de se tornar referência nacional e atrair apreciadores da bebida para a região.

“Nossos vinhos são destinados para o mercado de Goiânia e Brasília, área extremamente importante dentro do mercado brasileiro de vinhos”, diz o médico.

“Queremos criar uma identidade para a região e dar ênfase no consumo de vinho do cerrado, valorizando a gastronomia local, os empreendimentos turísticos regionais e, no futuro, atrair visitantes de outras regiões que vão vir aqui para comer nossa comida, se hospedar em nossas pousadas e consumir as tradições da nossa região.”

Por ora, o plano é triplicar a área plantada e, para isso, Souza busca parceiros, já que cada hectare de área plantada custa cerca de R$ 400 mil de investimento. Ele também pretende instalar uma estrutura para receber turistas ao lado do vinhedo.

“Nós produzimos um vinho de alta qualidade como qualquer outra região de vinho no mundo. Temos esse potencial. Nosso foco hoje é isso”, diz.

No DF, é possível encontrar os vinhos em algumas adegas especializadas. Em Goiânia, Anápolis e Pirenópolis, ele é comercializado em restaurantes. A empresa também faz entregas em casa, com venda mínima.

Notícia do G1.