O clã dos vinhos

Quem são as famílias que produzem de forma independente algumas das marcas mais célebres do mundo


Desde 3.500 antes de Cristo, quando foram produzidos os primeiros jarros de vinho nas montanhas de Zagros, no oeste do Irã, o cultivo de vinhas tem sido uma atividade eminentemente familiar. Foi apenas recentemente, na década de 90, que as grandes companhias internacionais passaram a estender os seus tentáculos sobre esse velho ramo de negócio. Em um movimento típico, a marca Louis Vuitton adquiriu os champanhes Moët et Chandon, Veuve Clicquot e Krug, além de arrebatar em 1999 o lendário Château d’Yquem. Com o intuito de deter essa tendência de concentração e eliminação dos produtores tradicionais, foi criada a Primum Familiae Vini, uma associação de vinicultores familiares com raízes de até 13 gerações. Os nomes de seus integrantes – Château Mouton Rothschild, Marchesi Antinori, Campagner Paul Roger, Symington Ports, Miguel Torres, Robert Mondavi Winery – são sinônimo de requinte e tradição. Dias atrás, durante a Primeira Feira de Vinho de Milão, esse clã da elite vinícola fez sua primeira grande aparição pública. Além de montar um estande próprio na Feira, a associação, que já tem 10 anos, promoveu uma rara e notável prova de vinhos, tratada pelos especialistas italianos como a degustação do século. “O que estamos bebendo não é vinho, é poesia líquida”, entusiasmou-se o enólogo brasileiro Renato Frascino. Outro brasileiro, Sérgio da Silva Castro, diretor do Pão de Açúcar, também estava espantado com a qualidade e a história dos 22 vinhos oferecidos pela associação. “Esta é uma ocasião única”, disse ele. O evento contribuiu para projetar o nome e o prestígio das marcas familiares, objetivo final da associação. “Queremos ajudar uns aos outros a continuar como empresas independentes”, explicou à DINHEIRO a jovem Alessia Antinori, filha do Marquês de Antinori e presidente da associação, conhecida como PFV no período 2003-2004. “Acreditamos que o nosso vinho vai carregado de valores e sentimentos que são transmitidos apenas de pai para filho, como a terra e o sangue.”

FRASCINO NA DEGUSTAÇÃO DO SÉCULO: “Isto não é vinho, é poesia” 
Ainda que essa conversa sobre valores, terra e sangue soe antiga e reacionária, a qualidade dos vinhos representada na PFV absolve seus integrantes de culpa. A família Antinori, por exemplo, tem sob o seu guarda-chuva vinhos como Solaia, Tignanello, Prunoto e Villa di Antinori, reverenciados em suas categorias como dos melhores do mundo. A filha do marquês gosta de lembrar que seus antepassados entraram no ramo em 1385, há 27 gerações, quando Giovanni di Piero Antinori registrou-se na guilda de Florença como produtor de vinho. Mais recentemente, coube aos Antinori romper com a tradição da região de Chianti e produzir os primeiros vinhos toscanos com uvas de origem francesa, que explodiram no mercado americano como os supertoscanos. Hoje, a companhia produz 15 milhões de garrafas de vinho por ano, com um faturamento de 120 milhões de euros. É uma gigante. Na mesma categoria enquadra-se a família Torres, espanhola. Seus vinhedos na região de Penedès, na Catalunha, datam do século 17, quando holandeses e britânicos, por problemas políticos, passaram a buscar na Espanha alternativas aos vinhos franceses da região de Bordeaux. Nesses três séculos o negócio da família resistiu à mudança de gosto dos consumidores e até mesmo ao bombardeio de seus vinhedos durante a Guerra Civil Espanhola. Naquela ocasião, final da década de 30, Miguel Torres Carbó e sua mulher, Margarita, tiveram de levar seus vinhos nos braços e oferecê-los de porta em porta nos restaurantes. Hoje em dia a quinta geração dos Torres administra uma marca presente em 157 países. “Para nós isso é muito mais do que um negócio. É a nossa vida”, disse à DINHEIRO o patriarca Juan Torres.


CASTRO, DO PÃO DE AÇÚCAR: Espanto com o sabor de vinhos únicos 
Ainda que espanhóis e italianos sejam protagonistas relevantes na história do vinho, é na França que se encontra o epicentro do mundo das grandes marcas. Além dos Rothschild, que entraram no ramo em 1853, quando o Barão Nataniel comprou os vinhedos de Brane-Mouton e os rebatizou como Mouton Rothschild, fazem parte da PFV a família Paul Roger, produtora do champanhe favorito de Winston Churchill; a família Joseph Drouhin, dona da marca Clos des Mouches; os Jaboulet, produtores do Petite Chapelle; e os Hugel, alsacianos, que se encontram na 11ª geração de fabricantes de um vinho branco e doce que não tem igual no mundo. Quando a PFV foi fundada havia uma outra marca francesa, a Cos D’Estournel, mas em 1999 ela foi vendida a uma multinacional. Os franceses que ficaram são duros na queda. Os Drouhin fazem vinhos na região de Borgonha desde 1880 e já passaram por maus bocados. Durante a Segunda Guerra, o patriarca Maurice foi perseguido pelos nazistas, que o tinham como membro da resistência. Em mais de uma ocasião ele teve de refugiar-se no labirinto das suas adegas para escapar às buscas da Gestapo. Seu neto, o jovem Laurent Drouhin, é um defensor incondicional das virtudes do seu vinho familiar. “Há uma centena de chardonnays, mas apenas um Clos des Mouches”, disse ele durante a degustação. Nicolas Jaboulet, por seu turno, lembrou que os vinhedos de Hermitage foram cultivados pela primeira vez por um cavaleiro que retornava da cruzadas, sedento. Diante de referências tão veneráveis, coube ao californiano Tim Mondavi, o único não-europeu do grupo, lembrar que o vinho tem sido, através dos séculos, a bebida da amizade, da generosidade e, também, da diversidade. “Para mim é simplesmente uma honra fazer parte deste grupo”, resumiu ele à DINHEIRO. A presença de Mondavi na associação mostra que fazer bons vinhos não é exclusividade de velhas famílias européias. Apesar de toda a conversa medieval sobre sangue, terra e valores, o fato, como lembra o historiador canadense Rod Phillips, é que “muitos dos châteaux de Bordeaux e muitas das propriedades de Borgonha mudaram de mãos várias vezes ao longo dos últimos 300 anos e ainda assim mantiveram sua integridade”. Conclusão do autor de Uma Breve História do Vinho: “As aquisições mais recentes não devem fazer grandes diferenças”. Certo, mas não contem nada ao pessoal da PFV. Eles são bacanas.

Listagem dos Clãs de vinhos no velho e novo mundo:


  • TORRES - Os catalães de Penedès fazem vinho há 300 anos e resistiram até aos bombardeios de Franco
  • SYMINGTON FAMILY  - O alto Douro, em Portugal, onde os Symington fazem vinho do Porto desde o século 19
  • JOSEPH DROUHIN  - Maurice Drouhin com os filhos, diante da adega onde se ocultou da Gestapo entre os Clos des Mouches
  • ROBERT MONDAVI  - Os californianos mostram que bons vinhos não se fazem apenas na Europa

Por Por Ivan Martins, de Milão
Nº EDIÇÃO: 356 | 29.JUN - 10:00
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