Médico de Brasília produz no cerrado vinho na lista dos melhores do mundo



Vinhedo em Cocalzinho produz quatro mil garrafas vendidas por até R$ 70.
Revista de gastronomia apontou tinto como um dos cem melhores de 2012.

Um médico do Distrito Federal com uma paixão de longa data por vinhos e sem nenhuma experiência na área decidiu, em 2004, implantar um vinhedo e produzir os primeiros vinhos tintos finos do cerrado. A experiência foi tão bem-sucedida que, logo na primeira colheita comercial da safra, em 2010, o Banderas, um dos rótulos produzidos, foi apontado como um dos cem melhores vinhos tintos do mundo em 2012 por uma publicação especializada em gastronomia.

O sucesso comercial se traduz em números. As quatro mil garrafas da safra de 2010 das marcas Banderas e Intrépido, comercializadas a R$ 65 e R$ 70, respectivamente, foram todas vendidas.

Natural de Piracanjuba, em Goiás, o otorrinolaringologista Marcelo de Souza diz que não cresceu próximo a fazendas e nunca teve experiência com plantações. Segundo ele, a paixão por vinhos surgiu quando se mudou para São Paulo para fazer uma especialização. Ele conta que era vizinho de uma importadora da bebida e que adquiriu como hábito passar pela loja para experimentar vinhos de diferentes partes do mundo.

Ao voltar para Goiás, Souza continuou a estudar a bebida e passou a frequentar grupos de degustação como hobby. A ideia de implantar um vinhedo surgiu, segundo ele, “a partir de uma analogia”.

"Foi uma analogia das necessidades que a videira tem para amadurecer a uva. Temos as mesmas condições climáticas de regiões produtoras, com temperaturas semelhantes às do verão mediterrâneo", disse. "O cerrado de altitude tem dias secos e quentes e noites frias, como nos países produtores de vinho. Temos o potencial climático para termos uma grande uva e, logo, um grande vinho."

Souza explicou que as noites frias favorecem o amadurecimento equilibrado de todos os componentes da uva, como a casca, a semente e a polpa. “Uva para chupar é um tipo de uva, e clima bom para amadurecer esse tipo de uva não é o mesmo perfil climático de uma outra região boa para amadurecer uva para vinho”, afirma. "Se tudo é perfeito, você colhe uma grande uva. O clima dá a parte final para fazer um vinho de qualidade", disse.
Cocalzinho de Goiás
Em 2004, o médico saiu com a família em busca de um solo adequado para plantar o vinhedo e escolheu um terreno em Cocalzinho de Goiás, município goiano na Serra dos Pireneus. Souza fixou residência em Pirenópolis com a família, para poder conciliar os cuidados com o vinhedo e o trabalho de médico em Brazlândia, no DF.

O passo seguinte foi iniciar o plantio de 78 fileiras de 200 metros de mil mudas de quatro variedades importadas da Itália: tempranillo, syrah, barbera e sangiovese.

Depois de colher as quatro toneladas da uva, a fruta é levada para a cidade, onde é processada em um galpão de produção e passa pelo processo de fermentação e maturação em tanques de inox.

O processo seguinte é colocar o líquido em barricas de carvalho americanas e francesas, onde podem passar até seis meses antes de serem engarrafadas. Souza explica que a finalidade delas é deixar o vinho mais encorpado e macio. “Passar o vinho pela barrica faz com que a cor fique mais firme e mais escura. Os aromas da barrica acrescentam-se aos aromas do vinho e fazem com que ele fique mais rico e mais interessante”, explica.

O período para atingir um vinho de qualidade é longo. Da colheita até o engarrafamento da bebida, o processo leva até dois anos.

Rótulos
O vinho Banderas, o mais famoso produzido pelo médico, tem predominância da uva barbera (85%) com 10% de tempranillo e 5% de sangiovese.

Em 2012, o Banderas foi considerado um dos cem melhores vinhos do mundo pela revista "Prazeres da Mesa" – lista na qual apenas sete marcas eram brasileiras. O rótulo também foi considerado pela revista "Baco" como um dos três melhores vinhos brasileiros acima de R$ 60 e o "Anuário do Vinho Brasileiro 2013" listou o Banderas como o melhor da categoria “outras castas tintas”.

Segundo Souza, o rótulo tem aromas bastante frutados e sabores intensos com notas de chocolate e de café. "É um vinho macio e pronto para tomar, não precisa guardar para melhorar."

Já o Intrépido tem predominância de syrah (87%) com 13% de tempranillo e é comercializado a R$ 65. "Ele é duro e tânico, o tipo de vinho que evolui na garrafa", diz Souza. "O perfil do vinho é de frutas vermelhas e escuras, além de especiarias, como cravo e pimenta."

Sobre o preço relativamente elevado dos produtos, Souza afirma que além da qualidade atestada por premiações, a demanda pelo vinho é maior do que a oferta. “O preço do vinho tem vários reflexos. Um é a qualidade. Ele compete com produtos do mesmo preço e mais caros. É um vinho raro, mal sai do estado de Goiás.”



Futuro
Souza afirma que ainda não tem a intenção de exportar os vinhos, mas de se tornar referência nacional e atrair apreciadores da bebida para a região.

“Nossos vinhos são destinados para o mercado de Goiânia e Brasília, área extremamente importante dentro do mercado brasileiro de vinhos”, diz o médico.

“Queremos criar uma identidade para a região e dar ênfase no consumo de vinho do cerrado, valorizando a gastronomia local, os empreendimentos turísticos regionais e, no futuro, atrair visitantes de outras regiões que vão vir aqui para comer nossa comida, se hospedar em nossas pousadas e consumir as tradições da nossa região.”

Por ora, o plano é triplicar a área plantada e, para isso, Souza busca parceiros, já que cada hectare de área plantada custa cerca de R$ 400 mil de investimento. Ele também pretende instalar uma estrutura para receber turistas ao lado do vinhedo.

“Nós produzimos um vinho de alta qualidade como qualquer outra região de vinho no mundo. Temos esse potencial. Nosso foco hoje é isso”, diz.

No DF, é possível encontrar os vinhos em algumas adegas especializadas. Em Goiânia, Anápolis e Pirenópolis, ele é comercializado em restaurantes. A empresa também faz entregas em casa, com venda mínima.

Notícia do G1.
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